15/11/2009

LAST BLUES


Não espalho, mas ando triste pra caralho. (Mário Bortolotto)






03/11/2009

A Praça

Cansada da poeira, do cimento e areia mal misturados, das desculpas do pedreiro e do atraso da obra de seu primeiro apartamento próprio, a senhora foi dar uma volta a pé.
Era um final de semana prolongado, a cidade estava quieta e quente. Muito quente.
Céu azul, sol brilhando, vento ausente.
Transpirava muito. Respiração ofegante. Não sabia se era efeito do calor ou da angústia por estar vivendo tudo aquilo na mais injusta solidão. Naquela altura da vida.
Pensava, pensava tanto em tantas coisas. Seu pensamento a ensurdecia.
Pessoas entravam e saiam da sua mente. Vinham de lugares tão distantes e esquecidos. Algumas teve até vontade de trazer de volta, outras teve medo que voltassem.
Ah, ela precisava de ar fresco. E de amor. Não era justa aquela solidão. Naquela altura da vida.
Resolveu voltar pro apartamento. Ficaria naquele pó um pouco mais e depois ia embora no seu carro velho pra casa onde morava provisoriamente.

Um vento traiçoeiro levanta a sua saia como um menino maroto que toca a campainha da casa do vizinho e sai correndo achando engraçado imaginar a cara da Dona Maria cheia de bobes na cabeça se perguntando se ela tinha ou não ouvido a campainha tocar.
Sem graça, ela olha para os lados preocupada se alguém tinha visto a cena. Imagina! Que desaforo! E foi atrás do vento atrevido tirar satisfações, vejam só.
Ao dobrar a esquina se deparou com uma grande tenda, no meio da praça. Parada, tentou entender o que estava acontecendo.
Era um circo? Era uma festa? Era um abrigo? pensava...
- É isso tudo e muito mais! - disse alguém sussurrando no ouvido dela.
Assustada, deu um pulo pro lado e olhou na direção da voz. Não havia ninguém.
Sem se preocupar muito com a voz, voltou-se para a tenda e foi caminhando em direção à ela. Cada passo mais próximo, vê mais e mais pessoas na praça. Notou que estavam felizes. Notou que estavam tranquilas. Notou qu...
- Quer entrar?- ouviu a voz novamente.
E ela entrou.
Lá dentro tudo tinha cor, tinha brilho, tinha arte.
De um lado, palhaços. De outro cantores. Na frente um homem com uma peruca loira gesticulava prendendo a atenção da platéia. Tinha gente dançando, tinha gente filmando.
Até o ator do filme que ela viu na semana anterior estava lá. Tocando violão e cantando com outras duas atrizes. Liiiiiiiiindos.
E ela cantou também, baixinho. Baixinho cantou. E dançou. E chorou. E riu - dessa vez bem alto. Sem vergonha. Semvergonha. E se a vergonha corasse suas bochechas por ver o travesti nu tratava logo de culpar o calor.
Exausta, saiu da tenda. Olhou pro céu e já era noite. A lua, mais redonda do que nunca, iluminava ainda mais aquela praça que já tinha seu brilho próprio.
Entrou na tenda senhora e saiu moça.
Satirizou sua solidão. Aplaudiu de pé sua performance. Agradeceu emocionada. Saiu de cena.
Foi dormir feliz.

29/09/2009

Fica

Este post é para a solidão humana. É para aqueles que de repente olharam pro lado e não viram ninguém. Para aqueles que chamam e não ouvem resposta. Que se viram no frio do abandono e sentiram seus pés gelados nas noites longas de sábado. Que não ouve mais o telefone tocar e nem vê mais a janela do messenger piscar. É para aqueles que gostariam simplesmente de dizer FICA mas não tiveram tempo...


Ah, não me deixa. Está no novo filme do Wong Kar Wai, na nova coreografia da Déborah Colker , todos eles falando sobre abandono, traição e o jogo sujo da crueldade amorosa. Por favor. Olha. Escuta. Não faça o mesmo. Dói. Veja a multidão desesperada na Lapa, no Baixo Botafogo, todos dedicados ao jogo sem regras de pegar gente. Olhos em giroscópio, caçadores de almas. Não coloque mais um personagem na guerra selvagem dos apaixonados que deixam de selo e, pronto, na cena seguinte tem mais alguém na grande comunidade dos solitários amargando o calvário tão moderno de estar abandonado, sequelado e todas as outras rimas de coitado. Mais um que abaixa a cabeça no tampo frio dos balcões e pede um pedaço de torta de blueberry que ninguém quis. São personagens bêbados pela falta de alguma explicação, vítimas de perplexidades amargas , de perguntas sem respostas, de telefones que emudeceram, de uma ausência que nada preenche. Ela. Ele. Alguém foi embora.
Sem mais. Sem aviso prévio. Nem aí para mais um coração quebrado na sarjeta. Dói na garganta de cada um a possibilidade de ser o próximo a vagar, trêbado, as fichas brancas do AA no bolso da camisa, a repetir cabisbaixo, taciturno, esse mantra dos que, de repente, estava tão bom, ela dizia que me amava, ele dizia que era para sempre, de repente ficaram sozinhos. Por quê? O que aconteceu? Fala. Responde. Atende o telefone.
Eu vi todas aquelas portas batendo na cara de gente-como-a-gente no filme de Kar Wai, gente que só lhe quis tanto bem, e, eis-me aqui, antes que seja tarde, urge abrir o jogo, cantar os versos básicos daquela canção. Não se vá. Ouve só. Hora de repetir o balbuciar dos trágicos do Nelson Rodrigues. Olha. Presta atenção. Escuta.
Eu estava no cinema, logo depois na primeira fila do balé do Municipal. Senti o medo que permeia os bastidores sentimentais de todos esses artistas geniais, a certeza de que já aconteceu com eles também - e com quem não? Percebi que na hora do embate amoroso nós somos dois sem-vergonhas, leitores de "Capricho" , "Ilusão", "Sétimo Céu" e "Grande Hotel", todos tementes de que role na real o que acontece com os artistas de telenovela, na tela e no palco. Acabou. Fui. Como se diz adeus para uma pessoa com quem você imaginou ficar junto a vida inteira? Como se percebe que aquele beijo foi o último e, ao contrário de todas as outras que faziam fechado, em "ohm", ela nunca mais lhe gemerá aos braços a felicidade aberta em "ahm"? Ninguém sabe a resposta. Há conselheiros vendendo livros sôfregos, oferecendo folhetos ansiosos com a promessa de solução. No las hay. As bruxas do desprezo e da rejeição, sim.
Não há uma fórmula que se decore e amadureça para participar, sem dor, desse jogo de sinais.
Não é War. Há quem diz adeus na lata. Há quem, um telefonema a menos hoje, um encontro menos empolgado amanhã, aos poucos vai mudando de trem e atracando em desesperada de fugir da balada-paranóica que a todos consome e iguais. Não pica a mula. Não bate a porta. Fica comigo esta noite, a de amanhã também, e a do fim de semana será como no início de tudo, os mesmos sorrisos, um banho de morritos em todos os erres da crueldade da perda. Não te arrependerás. Lá fora o frio é um açoite, calor aqui tu terás - e todas as outras músicas que falam das almas secretas de cada um. Acredita.
Sente só. Não chore com a voz triste do Ottis Redding cantando ao fundo. Não se impressione com o jogo de faca dos que traem e abandonam.
É só uma música do filme, uma cena impressionante do balé, e nada disso tumultuará o sono dos que querem dormir em conchinha de adoração positiva e nunca acordar para o pegapracapá dos sonâmbulos lá fora, dos deserdados amorosos rondando o quarto aquecido em que agora se está. Eis o único projeto possível.
Ficar junto. Ganhar a Libertadores da América. Comer sardinha frita na Cadeg. Sussurrar no ouvido a promessa definitiva. Nunca mais as noites aflitas no Trapiche Gamboa, o dar mole Carioca da Gema, o pisca pisca do orkut. Nunca mais vagar ao lado de todos os zumbis cegos pela rejeição amorosa, capazes de deixar a chave no balcão do Capela e esperar que ele, que ela, qualquer um dos tantos que já se foram, tenha uma crise de arrependimento e reconsidere. Abra a porta de novo. Perdão. Perdoa.
Agora vai ser diferente. Nunca mais um motivo pra beber. Pedir um traçado no balcão e perceber, no primeiro trago, que ninguém bebe aquilo por gosto - e, mesmo assim, o fígado pedindo tempo, ter vontade de pedir outro para dar um porre no passado.
Afagar a dor. Foi a última dose. Nunca mais qualquer migalha noturna que sirva apenas para esquecer. O telefone vai tocar o lero, o bolero, o tango e todas as outras delícias sonoras da conversa dos amantes.
Como está vestido? Já comeu alfajor de maisena? Os filmes, os balés, os bares da Lapa.
Nunca mais o 'procura-se' piscando néon na boca do peito de um baixo qualquer, a bandeira cruel de que está no mercado à cata do que quer que seja e - por favor ele acabou de pedir as contas, ele não telefonou mais - alivie a dor de um inverno já aparecendo na esquina. Sente só. Ouve. Escuta de novo esse bolero que toca desde o início e, ah, não me deixa.
de Joaquim Ferreira dos Santos

23/08/2009

D.R. - Cap. I

*Como amar esposa. Disse ele que agora só me amava como esposa, não como star. Me amassou as rosas, me queimou as fotos, me beijou no altar. Nunca mais romance. Nunca mais cinema, nunca mais drinque no dancing. Nunca mais cheese! Nunca uma espelunca. Uma rosa nunca, nunca mais feliz.

Ela Precisamos conversar.
Ele Ah não, de novo não. De novo, de novo, e de novo, não.
Ela Você acha que estamos bem assim?
Ele “Assim”
Ela - Hmm, ou - Hã, ou - Quê. Isso é o que você fala comigo ultimamente.
Ele Então que tal: Oh amorzinho, o que foi, o que você quer.
Ela Grosso...
Ele EEuu? Só queria saber se desse jeito tava bom de falar mas não, né?
Ela Você podia (e devia) falar como no começo do nosso namoro.
Ele Há! Entendi! Você tá com saudades daquela pegada. Opa!
Ela Pelo menos eu sei o que hmm e hã quer dizer.
Ele Então... estamos conversados. Final

leia também D.R. - Cap. II e D.R. - Cap. III

* Trecho da música A História De Lily Braun - Chico Buarque.

11/08/2009

D.R. - Cap. II

Ela ponto
Ele vírgula
Ela interrogação
Ele aspas
Ela travessão
Ele dois pontos
Ela reticências
Ele interrogação
Ela parênteses
Ele exclamação
Ela ponto
Ele ponto final

leia também D.R. - Cap. III e D.R. - Cap. I